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Ciência para a ação climática: uma agenda para 2026

2026 será um ano desafiador para a ação científica, dado o contexto geopolítico complexo e o declínio do apoio e financiamento à ciência. Muito dependerá de como a comunidade científica enfrentará o desafio de continuar e reformular seu trabalho crucial para impulsionar a ação climática.

Nesse contexto, informações com embasamento científico e recomendações políticas práticas são indispensáveis ​​para impulsionar o compromisso contínuo com a ação climática na COP31, na Turquia, em novembro, com a Austrália assumindo a presidência das negociações. Um conhecimento sólido sobre os fatores e impactos das mudanças climáticas, proveniente das ciências naturais e sociais, é vital para acelerar a ação climática e garantir que as soluções sejam críveis, equitativas e eficazes.

Com base na Apelo da comunidade ISC at COP30 no Brasil Para um apoio reforçado à ciência, surgem várias prioridades sobre como a comunidade científica pode fortalecer tanto a produção quanto o uso do conhecimento para a ação climática.

As faixas de aquecimento do Reino Unido foram projetadas nos Penhascos Brancos de Dover em junho de 2023 para marcar o Dia de Mostrar Suas Listras.

Declaração: Salvaguardar e fortalecer a colaboração científica internacional para a ação climática.

A comunidade científica global insta a que se mantenha o apoio à investigação científica e à colaboração para responder à crise climática.

  • Fortalecimento dos sistemas de observação

A adaptação eficaz depende de observações climáticas confiáveis ​​e de longo prazo. No entanto, a cobertura permanece desigual, particularmente em regiões de baixa renda e vulneráveis ​​às mudanças climáticas. Lacunas nos dados in situ criam pontos cegos críticos para o planejamento da adaptação, justamente onde as necessidades são maiores. Muitos sistemas de observação existentes estão cada vez mais fragmentados, subfinanciados e vulneráveis ​​a ciclos orçamentários de curto prazo, colocando em risco conjuntos de dados de longo prazo insubstituíveis.

À medida que os impactos climáticos se tornam mais abruptos e extremos, há uma necessidade urgente de reforçar os sistemas de observação para apoiar os sistemas de alerta precoce e redução de riscos, bem como a avaliação das medidas de adaptação. O aprimoramento e a sustentabilidade desses sistemas exigem a integração a longo prazo das observações por satélite e in situ, tratando-as como infraestrutura pública essencial – semelhante aos transportes ou às telecomunicações – em vez de complementos opcionais para pesquisa.

  • Transição para modelos de pesquisa transdisciplinares orientados para a missão

Apesar da consciência da urgência das mudanças climáticas, o financiamento para pesquisa continua insuficiente, fragmentado e distribuído de forma desigual entre disciplinas e regiões. Além de aumentar o financiamento por meio de mecanismos nacionais e multilaterais, as agendas de pesquisa precisam mudar de projetos isolados e de curto prazo para missões compartilhadas com questões de pesquisa comuns, conjuntos de dados compartilhados e indicadores interoperáveis.

A colaboração internacional deve ser incentivada, incluindo uma inter e transdisciplinaridade genuína que exige abordagens colaborativas que integrem as ciências naturais e sociais, incorporando atores sociais e políticos com parcerias mais sólidas entre regiões. Isso também requer uma mudança cultural, abandonando os modelos de pesquisa puramente competitivos em favor da cooperação, e um maior investimento na síntese do conhecimento existente, ainda que fragmentado, e não apenas em novas pesquisas exploratórias.

  • Incorporando conhecimento baseado na experiência

O conhecimento científico formal, por si só, será insuficiente para lidar com a complexidade das mudanças climáticas. A COP30 destacou a importância de integrar o conhecimento baseado na experiência, fundamentado na prática vivida e na observação de longo prazo. Isso inclui o conhecimento de agricultores, pescadores, pastores e moradores urbanos, bem como de profissionais como engenheiros, equipes de resposta a emergências, profissionais de saúde pública e planejadores urbanos.

Os sistemas de conhecimento indígena são fontes particularmente valiosas para a compreensão intergeracional dos ecossistemas e das práticas culturais ecologicamente sustentáveis. Isso foi ressaltado pela presidência brasileira da COP30, que refletiu o contexto amazônico. O principal desafio não é mais o reconhecimento, mas a integração de diversos sistemas de conhecimento: desenvolver estruturas epistemológicas robustas que combinem conhecimento qualitativo e quantitativo, abordando, ao mesmo tempo, questões de propriedade intelectual, consentimento e governança.

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  • Pesquisa participativa, tomada de decisões locais e combate à desinformação.

As pessoas interpretam o conhecimento científico através de suas experiências de vida, valores, identidades e percepção de capacidade de ação. A ciência adquire significado social quando ajuda as pessoas a lidar com escolhas reais – como planejamento urbano, moradia, emprego ou saúde – tratando as preocupações dos cidadãos como contribuições legítimas, e não como obstáculos.

Abordagens de pesquisa participativas e coproduzidas podem fortalecer a relevância sem comprometer o rigor científico, razão pela qual muitos cientistas em início de carreira estão interessados ​​em desenvolver modelos participativos que conectem a pesquisa mais diretamente às políticas e práticas locais. Além de integrar cientistas sociais às equipes de pesquisa, o estabelecimento de painéis de cidadãos e o apoio a observatórios cidadãos de longo prazo sobre questões como calor, inundações ou qualidade do ar podem melhorar a assimilação local do conhecimento científico para orientar ações climáticas locais.

Além disso, a contextualização local das questões é uma ferramenta importante para construir confiança e combater campanhas de desinformação que atrasam e prejudicam a ação climática. Garantir a integridade da informação foi um dos resultados notáveis ​​da COP30 por meio da adoção do Decisão Mutirão e afins Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas.

  • Aprimorando o diálogo entre cientistas e formuladores de políticas.

Persiste uma lacuna entre as avaliações científicas produzidas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), geralmente realizadas a cada cinco a sete anos, e as negociações anuais da Conferência das Partes (COP) no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Além disso, existem desafios relacionados à equidade e à representatividade em iniciativas científicas globais, bem como à complexidade técnica dos relatórios do IPCC, o que pode limitar seu acesso a formuladores de políticas e ao público em geral.

Como resultado, valiosas descobertas científicas muitas vezes não se traduzem em impacto político. As futuras presidências da COP podem, portanto, considerar a possibilidade de estabelecer um mecanismo permanente para integrar a ciência climática no processo da UNFCCC, complementando o papel de avaliação do IPCC e, ao mesmo tempo, respondendo ao ritmo mais acelerado e às necessidades em constante evolução das negociações.


Em 2026 e nos anos seguintes, sistemas de observação contínua, estruturas de conhecimento inclusivas e agendas de pesquisa coordenadas serão essenciais para gerar a amplitude e a profundidade de evidências necessárias para combater eficazmente as mudanças climáticas. A assimilação desse conhecimento, particularmente em nível local, depende de projetos de pesquisa que abranjam plenamente as ciências sociais e naturais, incluam múltiplas partes interessadas, bem como de esforços mais robustos para comunicar as descobertas científicas e combater a desinformação.

Em nível internacional, a turbulência política e o subinvestimento na pesquisa científica provavelmente persistirão no período que antecede a COP31. Isso torna ainda mais importante maximizar a colaboração entre disciplinas, regiões e comunidades, e fortalecer o diálogo entre cientistas e formuladores de políticas. Acima de tudo, reafirmar nosso compromisso coletivo com a ciência, o conhecimento compartilhado e o diálogo aberto é essencial para possibilitar decisões informadas para um futuro mais seguro e justo para as pessoas e o planeta.


Imagem: NASA/Kathryn Hansen via Flickr (CC BY 2.0)

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