Este texto faz parte de uma série de posts no blog em que membros do ISC... Comitê para Liberdade e Responsabilidade na Ciência (CFRS) compartilham suas reflexões sobre o Confiança na ciência para a relação entre políticas públicas e ciência O relatório foi divulgado após um workshop coorganizado pelo Conselho Internacional de Ciência (ISC) e pelo Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia, com o patrocínio conjunto da Fundação Nacional de Ciência dos EUA.
O workshop reuniu especialistas para examinar a dinâmica complexa da confiança na ciência no âmbito da formulação de políticas e para refletir sobre uma questão central: Até que ponto a confiança na ciência para a formulação de políticas pode ser separada de questões mais amplas de confiança nas instituições democráticas?
Sobre o autor: Heather Douglas É professora titular do Departamento de Filosofia e membro do Grupo de Filosofia da Ciência Socialmente Engajada da Universidade Estadual de Michigan. Ela também é membro do Comitê de Liberdade e Responsabilidade na Ciência do ISC (Instituto de Ciência).
O recente relatório do ISC sobre a confiança na ciência para a formulação de políticas públicas merece elogios pela sua abordagem ponderada e cuidadosa ao lidar com as questões complexas na interface entre ciência e política. Este comentário aprofunda os temas dos valores na ciência e os fundamentos da confiança cidadã na ciência.
Primeiramente, devemos refinar nossa compreensão do papel dos valores sociais e éticos na construção da confiança pública na ciência para a formulação de políticas. Os valores sociais e éticos são fundamentais para a conduta responsável e responsiva da ciência (por exemplo, direcionando a atenção científica para problemas sociais, moldando metodologias eticamente aceitáveis e decidindo quando as evidências são suficientes para a disseminação e o uso da informação científica). Isso significa que parte da confiança na ciência é confiar nos julgamentos sociais e éticos feitos na busca pelo conhecimento científico. Os cientistas podem e devem ser transparentes sobre os julgamentos de valor que moldam (embora não determinem) seu trabalho. Evidências sugerem que isso não prejudicaria a confiança pública (Hicks e Lobato, 2022). Ao contrário, provavelmente humanizaria o empreendimento científico.
Para que os cidadãos decidam se devem confiar na ciência e em que medida, precisam de instituições científicas e cientistas confiáveis. Parte da falha do ensino de ciências atual reside no fato de se concentrar excessivamente nos resultados de pesquisas passadas e não o suficiente nos processos que os geraram. O debate crítico contínuo na ciência, a centralidade das evidências e dos métodos nesses debates, e os processos abertos de resolução são cruciais para a confiabilidade — e, portanto, para a credibilidade — das descobertas científicas. O ensino de ciências precisa se concentrar nesses aspectos da prática científica para que os cidadãos saibam o que procurar ao decidir se uma comunidade científica é confiável. Idealmente, o ensino de ciências permitiria que os alunos se envolvessem em investigações científicas reais para ajudá-los a compreender plenamente o processo (como pode ser feito até mesmo com alunos do segundo ano do ensino fundamental).
Tal compreensão da prática científica — o engajamento e o debate contínuos necessários — ajudaria a produzir a humildade básica necessária para moderar o instinto de "fazer a própria pesquisa". Não é viável para a maioria dos cidadãos participar de comunidades de crítica e debate da maneira sustentada necessária para a expertise científica. Cientistas confiáveis participam dessas práticas de debate comunitário, e esse debate deve ser exibido o máximo possível para sinalizar confiabilidade. Instituições e comunidades científicas confiáveis são aquelas que apoiam essas práticas de debate e evitam a reação reflexiva à crítica de agir "como um formigueiro com um intruso" (p. 20). As críticas precisam de uma resposta fundamentada, não de manobras defensivas.
Além de apoiar e promover o debate central para a produção de conhecimento científico de qualidade, as comunidades e instituições científicas precisam estar abertas a uma gama diversificada de pessoas e perspectivas, para que haja maior probabilidade de que as considerações de valor necessárias para uma expertise responsiva sejam representadas no debate científico (p. 32). Idealmente, cada um de nós deveria confiar nos especialistas que fazem os julgamentos que nós faríamos se tivéssemos a expertise deles. Exibir tanto os valores que fazem parte da ciência quanto os debates centrais para a ciência fornece uma base sólida para a confiança pública.
Igualmente importante, porém, é a proteção da ciência contra o poder político. Políticos comprometidos com ideologias específicas não devem poder sobrepor-se às conclusões científicas em relatórios consultivos. A "evidência informada por políticas", quando distorce o conhecimento preciso, mina profundamente a confiança pública. Embora os consultores científicos devam garantir que seus pareceres sejam relevantes para os atores políticos que assessoram, isso não significa produzir exatamente e somente o parecer que os assessorados buscam. É nesse sentido que os consultores científicos precisam de certa independência em relação aos seus assessorados.
A ciência não deve ser usada como pretexto para decisões políticas. Se reconhecermos a falibilidade da ciência e a importância dos valores na sua formação, a informação científica não se resume a afirmações de verdade inquestionáveis. Em vez disso, a ciência aplicada às políticas públicas deve ser a melhor informação disponível no momento — o que significa que pode ser contestada por descobertas futuras, pode ter deixado de abordar aspectos importantes de um problema (uma questão de enquadramento) e não deve ser determinante para escolhas políticas, como observa o relatório. Os políticos devem acatar as recomendações, mas ainda assim tomar as suas próprias decisões, pelas quais serão responsabilizados politicamente. Esconder-se atrás da ciência — seja ela um reflexo preciso das opiniões da comunidade científica ou uma ciência fabricada para apoiar uma agenda específica — deve sempre ser visto com suspeita.
O ideal para o cidadão seria confiar em uma ciência que emergisse de um consenso devidamente formado (após um longo debate entre uma gama diversificada de perspectivas e pontos de vista científicos). Tal consenso também deveria incorporar o julgamento de especialistas informado pelos valores do cidadão e, portanto, ser plenamente confiável — mesmo que falível. Seria o melhor que temos no momento.
Imagens por Connie de Vries on Unsplash
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